Nosso Fundador

O CORAÇÃO SOBRE A CRUZ

Mario Panciera, scj


A cruz que é entregue ao dehoniano no momento em que emite a sua profissão religiosa, tem um coração que é o símbolo do Coração de Cristo, mas indica também a entrega do próprio coração a Cristo.
A vida do Pe. Leão Dehon, desde o princípio até ao fim, foi marcada pela cruz que ele aceitou e ofereceu em espírito de amor e de reparação para com o Coração de Jesus, mas também para com a sua Congregação. Ele, no entanto, nunca foi um “dolorista”, antes externamente mostrava-se sempre sereno, quase imperturbável, muitas vezes até com matizes de fino humor. 
A cruz, sabemo-lo todos, não é só o instrumento da nossa redenção, mas também a passagem obrigatória para todo e qualquer contributo em ordem à construção do Reino.
Se olhamos para a vida do Pe. Dehon, parece evidente que a existência da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus tem o seu fundamento na vontade de Deus, como não podia deixar de ser, mas foi gerada também pelos sofrimentos aceites e oferecidos pelo Pe. Dehon.
A nossa tese é que a cruz se entrelaça tão constante e intimamente com a vida do Pe. Dehon, que é impossível não ver nisso, por um lado, a consequência lógica do seu voto de vítima e, por outro, um preciso desígnio de Deus que quis edificar esta Congregação sobre a dinâmica de morte e de ressurreição do seu Fundador.
A estas conclusões chegamos facilmente através de um olhar retrospectivo e sincrónico que só colhe o sentido da totalidade, quando se chega ao fim. É o que tentaremos fazer nos breves limites de um artigo que poderia levar a um estudo mais profundo e documentado.

1.     O sinal da cruz

Não há dúvida de que a emissão do voto de vítima, que o Pe. Dehon uniu à profissão dos votos religiosos a 28 de Junho de 1878, é a charneira. Oferecer-se a Deus como vítima de amor e reparação, como quer que se o queira entender, consistirá sempre em colocar-se voluntariamente sobre o altar com Jesus, Vítima Divina, oferecida ao Pai pela remissão dos pecados. O modo como Deus leva a sério esta oferta como vítima parece evidente, não só na vida do Pe. Dehon, como também na dos nossos primeiros sacerdotes que lhe seguiram o exemplo.
Se, na evolução espiritual do Pe. Dehon o voto de vítima assume um lugar de charneira, devemos reconhecer, no entanto, que também na sua vida anterior não faltou a cruz, na qual, como veremos, se manifestaram os mimos de Deus.

Ainda que sendo de elevada estatura, o jovem Leão Dehon nunca foi um colosso de saúde. O seu carácter inteligente e vivaz ocultava uma constituição frágil, devida também a algumas doenças de criança que deixaram sequelas para o resto da vida.
Tinha apenas quatro anos, quando foi acometido por uma febre cerebral maligna, a mesma doença que alguns anos antes tinha ceifado a vida a um seu irmãozito. Recuperou, mas ficou-lhe sempre uma propensão para as dores de cabeça. Já em idade escolar, aconteceu-lhe um grave acidente precisamente quando regressava da escola a casa. Era já escuro e nevava intensamente. Avançava pelo caminho, praticamente encapuçado, quando foi bater contra um cavalo que puxava uma carroça. Ele próprio atribui ao Anjo da Guarda o facto de não ter ficado debaixo do rodado, mas apanhou na cabeça uma forte pancada que lhe provocou um atordoamento durante alguns dias e uma ligeira surdez que o acompanhou por toda a vida.

Chegamos agora à sua longa viagem pelo Médio Oriente e pela Terra Santa (Agosto de 1864-Junho de 1865). Nos seus apontamentos relata dois factos relativamente extraordinários. O primeiro refere-se a uma chaga dolorosa num dos pés, devido às longas caminhadas e à subida ao Monte Carmelo. Rezou a Nossa Senhora e, no dia seguinte, a chaga tinha desaparecido. Na mesma altura, enquanto visitava a Tróade em companhia do amigo Palustre, acometeu-o uma grande febre que lhe retirou as forças, a ponto de ter de ficar de cama. Prosseguir a viagem era arriscado, mas também desta vez encomendou-se a Nossa Senhora e, passados dois dias, estava novamente em condições de se fazer ao caminho.
Prosseguindo no tempo, vamos a Roma, onde estava a fazer a sua preparação para o sacerdócio. Desta feita corre mesmo perigo a sua vida. Estamos em 1868, um ano em que se concentraram uma série de compromissos que o levaram ao esgotamento. Escolhido como um dos 24 estenógrafos para o Concílio Vaticano I, à normal canseira das aulas e dos estudos teológicos juntaram-se os cursos de estenografia. Além disso, nesse período os pais encontravam-se em Roma numa visita de dois meses e isso obrigava-o a acompanhá-los muitas vezes nas visitas à cidade. E foi precisamente em atenção à presença dos pais que lhe foi concedido o indulto papal que lhe permitiu antecipar de alguns meses a ordenação sacerdotal.
Era inevitável que esta acumulação de compromissos acabasse por ter efeitos na sua saúde. Com efeito, cai numa profunda prostração, não consegue manter-se de pé e devora-o uma febre que leva a suspeitar a presença da temível tuberculose pulmonar. Corria perigo a sua vida, enquanto em França era esperado para a Missa Nova. Fui nesta circunstância que se deu algo extraordinário. Não se saberá nunca quem lhe enviou uma encomenda anónima contendo um frasco de água de Lurdes e um chamado cordão de S. José. O Pe. Dehon bebe a água de Lurdes e fica curado, de modo que pode tomar o comboio e viajar para a terra natal, a fim de lá celebrar a sua Missa Nova. Graças a Deus! Mas o seu aspecto era tal que não faltou quem comentasse: “Este Padre não vai celebrar muitas Missas!”.
Que dizer destes factos? Estamos ainda no início da sua missão e já a precariedade da sua saúde aparece como um desafio ao futuro. Mas a mão de Deus estava sobre ele e nós, hoje, sabemos porquê.

2. O voto de vítima

Aquele pobre Padre, para o qual não se previa grande futuro, afinal, celebrará ainda muitas Missas. Munido de quatro doutoramentos, vê-lo-emos vigário paroquial em S. Quintino imediatamente mergulhado num mar de actividades e de obras sociais. Atento à voz do Senhor, sente-se chamado a fundar um novo Instituto dedicado ao culto e ao amor do Coração de Cristo. A 28 de Junho de 1878, festa do Coração de Jesus, o Pe. Dehon termina o seu noviciado e emite os votos religiosos, acrescentando o de vítima. Desse dia escreve: “Entreguei-me sem reservas ao Sagrado Coração de Jesus e na minha intenção os votos já eram perpétuos. A minha emoção foi muito profunda. Sentia que tomava a cruz aos ombros, entregando-me a Nosso Senhor como reparador e como fundador de um novo Instituto”.
Trata-se de uma grande meta. O Pe. Dehon estava bem consciente da sua consagração e, nas frases citadas, ele mesmo nos fornece a chave de leitura de todos os acontecimentos futuros.
Encontramo-nos no coração da espiritualidade reparadora, tal como era entendida pelo Pe. Dehon e pelos seus primeiros discípulos. É esclarecedor, a este propósito, o que escreve aquela maravilhosa figura de dehoniano que foi o Pe. Afonso Rasset: “Creio que, consagrando-se ao Sagrado Coração de Jesus, se obtêm sobretudo esplêndidos insucessos, humilhações, derrotas e catástrofes, à mistura com sucessos incríveis que provocam o maior espanto, quando se considera a pobreza dos instrumentos…”. Uma convicção e uma constantação, sobretudo um modo de agir da parte de Deus.
Muitas vezes o Pe. Dehon ilustra a sua maneira de ver a espiritualidade ‘vitimal’. Relativamente à reparação e à consolação para com o Coração de Cristo tinha ideias muito precisas, ainda que não pudesse na altura dispor das actualizações teológicas que virão mais tarde. Por exemplo, quando o Pe. Guillaume escreve que o nosso Fundador, “mais do que reparadores, tinha entendido reunir consoladores”, o Pe. Dehon tem logo o cuidado de esclarecer: “Você não conhece ainda nos pormenores os nossos inícios. Eu não quis fazer uma Obra de consolação sem reparação. Não quis senão fazer uma obra de reparadores e de vítimas… Fiz voto de vítima e o Senhor levou-o a sério, enviando-me, uma após outra, as provas mais “crucificantes”, algumas das quais são mencionadas nos meus ‘Souvenirs’.”.
Nestas poucas linhas define o fim da sua Obra, mas precisa também a forma como vê, em todos os acontecimentos da sua vida, uma correlação directa com o seu voto de vítima.
 Note-se, entretanto, que ele não adere àquela ideia do rigorismo penitencial que caracterizava a espiritualidade de Madre Verónica, fundadora das Vítimas do Coração de Jesus. A esta escola pertencia o Pe. André Prévot, que fez parte do núcleo de sacerdotes que gravitavam na órbita da Madre. O Pe. Dehon, por seu lado, precisava: “Eu prefiro deixar na mão do Senhor o cabo da disciplina. Insisto menos nas mortificações pessoais, ainda que as considere necessárias, mas recomendo mais o abandono paciente às provações que o Senhor enviará. Nosso Senhor não Se crucificou, mas deixou-Se crucificar”.

3. Quando Deus leva a sério

Repetidas vezes o Pe. Dehon se refere às dolorosas provações que sofreu na sua vida e vê-as como uma confirmação do seu voto de vítima. Faz delas, por conseguinte, uma leitura de fé. Se olhamos para a sua vida, parece evidente que lhe foi pedido que sacrificasse tudo: a consumpção da vida, a perda dos bens materiais e a destruição das suas obras, a supressão temporânea do Instituto, as calúnias mais lesivas da sua honra e até a incompreensão e agressão moral da parte de alguns dos seus filhos espirituais. Uma espécie de agonia progressiva até à morte moral que ele chamará o seu “consummatum est”.
Se nós agora levantamos o véu sobre alguns destes acontecimentos dolorosos, fazemo-lo com temor e tremor, lendo-os também nós à luz daquela fé com que o Pe. Dehon os transfigurou e tornou fecundos no amor de Cristo.

a)    A preço da vida

A longa e activa vida do Pe. Dehon esconde um segredo de amor e de morte. Já nos encontrámos com a terrível tuberculose pulmonar, mas agora ela irrompe de modo mais violento e dramático. Logo nos primeiros anos de actividade, como vigário paroquial, o Pe. Dehon tinha assumido uma tal sobrecarga de trabalho, que mal lhe sobravam espaços de tempo para a oração, para o estudo e para o indispensável descanso. Precisamente no momento em que ia lançar-se na fundação do novo Instituto, foi o descalabro. A doença que o minava explode com invulgar virulência, reaparecendo as hemoptises. Em pouco tempo a situação agravou-se, a ponto de se temer pela sua vida. Aqui intervém a mão de Deus. Quando as Servas do Coração de Jesus, de quem era director espiritual e confessor, conhecem a gravidade da doença e sabem que os médicos não lhe dão mais do que três meses de vida, logo iniciam uma espécie de competição de orações e de penitências para arrancar o milagre da sua cura. De modo especial, a Irmã Maria de Jesus, irmã mais nova da Fundadora (Madre Ulrich), oferece a sua vida em troca da do Padre. Escreve a sua decisão, pedindo o espaço de quinze meses (conforme os mistérios do Rosário), a fim de se preparar para a morte. É acometida de tuberculose fulminante e, passados dez meses, Deus considera-a já preparada para o céu. O Padre recupera e haverá de trabalhar incansavelmente até aos 82 anos, sem nunca esquecer o preço do prolongamento da sua vida.

Quando o Pe. Dehon escrevia que Deus tinha tomado a sério o seu voto de vítima, sabia certamente o que dizia. E nós não podemos deixar de ficar surpreendidos, perante o mistério de morte e de ressurreição que envolve a sua vida.
Recupera, mas não por completo. Enfermidades e sofrimentos, incluindo os achaques da velhice, acompanham-no ao longo de toda a vida. A confirmá-lo, aí fica uma frase que remonta a 1915: “Não posso mais. A bronquite crónica faz-me tossir com frequência e escarrar sangue”, e esclarece que por vezes corre o risco de sufocar.

b)    ‘Deus deu, Deus tirou’

Todas as primeiras casas, berço da Congregação e abertas graças ao seu considerável património pessoal, sofreram a sorte da espoliação ou da destruição. Primeiro com a guerra franco-prussiana, depois com as leis anti-religiosas dos governos maçónicos dos começos do século XX, que contemplam a expulsão dos religiosos e a confiscação das suas obras, por fim com a grande guerra de 1914-1918. Quando, no fim desta guerra, o Pe. Dehon, após três anos de exílio, voltou a França e viu as ruínas das suas casas, não conseguiu reter as lágrimas, mas a sua fé prevaleceu e levou-o simplesmente a dizer: “Com a ajuda do Coração de Jesus, havemos de recomeçar pela terceira vez”.
De facto, não só as casas foram reconstruídas, como foram aberta outras em vários países e nas Missões (Equador, Brasil, Congo). Ainda hoje, tendo em consideração a precariedade económica devida às guerras, não nos é fácil imaginar como conseguiu fundos para levar por diante tantas obras. Os seus fundos pessoais estavam esgotados e nada mais restava senão a confiança na Providência: “Os recursos faltam, os benfeitores falham, faz falta uma confiança cega na Providência”.
Estas tremendas dificuldades não conseguem nunca desmoralizar o Pe. Dehon, mas, ao contrário, aumentam nele a fé e a esperança. Não pode senão ser esta a explicação para a decisão de iniciar em Roma, em tempo de gravíssima crise económica, a construção do grande Templo de Cristo Rei. Ainda que incentivada pelo Papa Bento XV, podia, de facto, parecer uma iniciativa temerária, mas ele é assim: quando está convencido de que uma obra é querida pelo Senhor, nada o detém. Menos ainda o aspecto financeiro, porque também este deve entrar no plano de Deus. O que, naturalmente, não o dispensava dos calafrios de uma fé que por vezes tocava as raias do heroísmo, mas que a fidelidade de Deus nunca desiludia. Dedicou as últimas energias à obra de Roma que os seus filhos espirituais só a muito custo conseguirão levar a bom porto (1934), quase dez anos após a sua morte (1925).

c)    ‘Se o grão de trigo não morrer…’

Já fizemos referência aos acidentes materiais, que nada são perante a tragédia que bem cedo irá atingir a novel Congregação do Pe. Dehon. Falando desta calamidade, vem à lembrança a frase evangélica: “Se o grão de trigo cair à terra e não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto” (Jo 12, 24).
Primeiro foi a calúnia destinada a destruir a sua honra moral. É certo que saiu perfeitamente ilibado, mas todos sabemos o efeito devastador da lama das calúnias. Ainda que na sua origem se encontrassem pessoas manifestamente desequilibradas ou movidas por vis interesses, não é difícil imaginar o vexame e a desonra do Pe. Dehon na cidade onde era por todos conhecido e estimado.
Posteriormente, a agressão é dirigida a toda a sua Obra, que acabará por ser, ainda que temporariamente, totalmente destruída. Aqui não é possível entrar no emaranhado dos factos, dos mal-entendidos, das falsidades caluniosas, das pressões provenientes inclusivamente da parte de alguns sacerdotes da Congregação, que levaram o Bispo da diocese, D, Odon Thibaudier a perder a confiança no Pe. Dehon. Além do mais, pairava a impressão de que a Obra confiava demasiado em certas “revelações” (Ir. Maria de S. Inácio) e em presumíveis visões extraordinárias (Pe. Tadeu Captier, SCJ). Resumindo, o Bispo a quem competia conceder a autorização diocesana à Congregação, decidiu pedir conselho a instâncias superiores e o assunto acabou por ser encaminhado para Roma, para o então chamado Santo Ofício. O Bispo não pretendia mais do que um conselho, mas, em vez disso, veio um decreto de morte. A Obra devia ser desmantelada, porque assente em presumíveis revelações não autênticas e, portanto, carecida de credibilidade.
O decreto do Santo Ofício trazia a data de 28 de Novembro de 1883, mas por acaso ou providencialmente foi entregue ao Pe. Dehon a 8 de Dezembro, festa da Imaculada Conceição: foi certamente a Virgem Santíssima a sustentá-lo na terrível provação. Ele mesmo o diz: “Recebi esta sentença de morte na festa de 8 de Dezembro… Deus sabe o que sofri durante aqueles dias de morte. Sem uma graça especial teria certamente perdido a razão ou a vida”.
É o seu “consummatum est”. Tudo aquilo que tinha procurado construir, convencido da vontade de Deus e tranquilizado pelos seus directores espirituais (até S. João Bosco o tinha confirmado) era como que desmascarado e destruído. A um advogado como ele não podia escapar o facto de aquelas conclusões não serem suficientemente fundamentadas, pelo que era possível pensar em interpor recurso. Ele, porém, mantém-se fiel ao seu voto de vítima, vive no espírito de abandono à vontade de Deus, não procura defesas nem justificações, mas, ao contrário, atribui a si próprio todas as culpas.
Retira-se para a capela e redige de um só jacto uma nobilíssima e comovedora carta ao seu Bispo, na qual transparece a força e a qualidade da sua espiritualidade: “Nosso Senhor pede-me agora que destrua aquilo que me pediu que construísse”. O sofrimento é indescritível: “A morte tê-lo-ia sido cem vezes menos( dolorosa)”. É um homem despojado de tudo, nada mais lhe resta. “Está tudo quebrado e destruído: a honra, os recursos económicos investidos, a esperança e mais do que sou capaz de exprimir. Mas aquilo que mais me tortura é este pensamento ao qual não posso furtar-me: Nosso Senhor quis esta Obra e eu fi-la ruir por causa das minhas infidelidades”.
Neste momento supremo o Pe. Dehon não se afasta da lógica da fé e da humildade mais autêntica. E termina desta forma: “Quanto a mim, Excelência, peço-lhe que não se preocupe com a minha pessoa. Ficaria extremamente feliz, se pudesse, com todas as minhas humilhações e destruições, reparar as minhas culpas passadas e oferecer a Nosso Senhor alguma compensação”. E coloca toda a sua disponibilidade nas mãos do Bispo: “Farei tudo aquilo que me ordenar em nome da santa Igreja e quando o entender”.
Esta carta, se se pensa nas dramáticas circunstâncias daquela hora, equivale a um monumento e por si só bastaria para dar a medida espiritual do homem, do sacerdote, de fundador. Nenhuma tentativa de auto-defesa. A sua atitude é a de uma vítima imolada no altar, que tudo aceita como expiação dos seus pecados e para “oferecer alguma compensação a Nosso Senhor”.
Precisamente naqueles anos (1882-1883), a culminar a medida do seu sofrimento, junta-se a morte do pai e a da mãe, a muito curta distância uma da outra.
Vem à ideia a figura de Job: “Então Job levantou-se, rasgou as suas vestes, rapou o cabelo, caiu por terra, prostrou-se e disse: Saí nu do ventre de minha mãe e nu para lá voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; seja louvado o nome do Senhor!” (1, 20-21). Os sentimentos podiam ter sido estes, mas o Pe. Dehon viveu-os naquela dimensão de fé, abandono, humildade, obediência que dão forma ao heroísmo cristão.
A morte será a última palavra?
Se é lícito comparar as coisas humanas com as divinas, podemos pensar na paixão do Senhor: “Depois de ter cumprido tudo quanto tinha sido escrito a seu respeito, depuseram-n’O da cruz e colocaram-n’O no sepulcro. Mas Deus ressuscitou-O dos mortos” (Act 13, 29). Depois da morte e da sepultura, há aquele “mas” que subverte a situação. Também a Obra do Pe. Dehon estava destruída, mas era de verdade querida por Deus. Por isso, na sequência das necessárias explicações que o Bispo levou a Roma, apenas quatro meses depois do decreto de morte, chega um novo decreto que permitia a sua ressurreição (28 de Março de 1884). No novo decreto diz-se que a supressão não tinha ficado a dever-se a culpas das pessoas, mas ao facto de que (a Obra) estava assente e era governada na base de presumíveis revelações. Assim sendo, eliminadas estas, a Congregação podia ser recuperada, ainda que com outro nome: não já “Oblatos”, mas “Sacerdotes do Coração de Jesus”.
Por conseguinte, da morte à nova vida: “Sou Eu que dou a morte, Eu firo e curo” (Deut 32, 39). O Padre escreve: “Era a vida sofrida, mas era a vida”. Uma vida necessariamente purificada, porque é sempre verdade que Deus sabe tirar o bem até do mal. De facto, no fim de contas, esta tempestade foi também uma purificação de elementos espúrios, levando a uma maior fundamentação da Obra na Palavra de Deus e nas directrizes eclesiais.
Graças a Deus, a fundação do Pe. Dehon renasce, mas uma provação como esta deixará necessariamente marcas sangrentas na sua pessoa e na própria Obra. Depois de todo o sofrimento que se pode imaginar, acrescente-se que a documentação depositada no Santo Ofício, apesar da reabilitação conseguida, por longos anos continuará a formar uma barreira a opor-se ao reconhecimento definitivo da Congregação, barreira que só será ultrapassada com a intervenção directa e pessoal do Papa S. Pio X.

d)    Os sofrimentos morais

Doenças, encerramento de casas, destruição da Obra, são factos bem visíveis e palpáveis, mas que dizer dos sofrimentos interiores ou morais que em muitos aspectos acabam por ser piores?
Já algo foi dito a esse respeito e mais havemos de dizer na base das notas pessoais do Padre, mas muitas outras serão deixadas àquela que é capaz de ultrapassar o véu do pudor e da discrição.
Devemos dizer, desde já, que o Padre Dehon teve de enfrentar uma duríssima batalha dentro e fora da Congregação. Que se passou?

    a) Dificuldades fora da Congregação

Falando de forma genérica e no plano eclesial, não podemos esquecer que o Pe. Dehon era como que levado nas palmas das mãos, admirado pela sua competência e pelas múltiplas iniciativas na área social, por aquela sua versatilidade vulcânica que lhe permitia pôr em movimento ao mesmo tempo muitas e variadas actividades.
Todavia, deve notar-se que não encontrou sempre plena aceitação no presbitério de S. Quintino. Com apenas 33 anos tinha sido nomeado cónego honorário e nem todos os seus colegas sacerdotes viam com bons olhos a rápida ascensão deste jovem Padre. Não lhe foram poupadas invejas e críticas e não lhe foi por nada facilitado o estabelecimento das suas obras sociais na cidade. À frente da diocese sucederam-se vários Bispos, alguns dos quais haviam previamente sido influenciados por informações negativas, se não caluniosas, a seu respeito. Daqui as dificuldades de relacionamento, as interferências ‘fracturantes’, as ordens contraditórias. Pode afirmar-se que não lhe foi fácil a obediência aos seus Bispos.
Já se fez referência aos efeitos negativos de certas calúnias que tentaram atirar para a lama a sua moralidade, e também àquele dossier depositado no Santo Ofício que havia provocado a supressão temporária da Congregação. Mesmo que as calúnias tenham sido desmascaradas e as dificuldades romanas esclarecidas, nem por isso deixaram de constituir espinhos que penetraram profundamente no coração e na personalidade do Fundador.
Para seu conforto, verificou-se um facto digno de registo: apesar de todas as tempestades que se ergueram contra a sua pessoa e a sua Obra, o Pe. Dehon nunca perdeu a confiança e o encorajamento de todos os Papas do seu tempo, desde Leão XIII, a S. Pio X, a Bento XV, a Pio XI. Mesmo assim, não faltava matéria mais do que suficiente para o manter em estado permanente de humildade e de temor a impedi-lo de respirar em paz.

    b) Dificuldades dentro do Instituto

Na história dos inícios, há um capítulo muito amargo no tocante às relações entre o Padre Fundador e alguns dos seus discípulos. Considerando o exemplo de S. Paulo, também se poderia falar de agressões por parte de “falsos irmãos”.
Entre os primeiros sacerdotes que entraram a fazer parte da Congregação, alguns traziam consigo experiências pouco felizes noutros Institutos. Alguns possuíam um carácter problemático, instável, presunçoso, inclinado a ilusões místicas. Bem cedo o Fundador se viu confrontado com uma fractura interna entre quem seguia a sua linha espiritual e apostólica e quem, ao contrário, defendia uma linha mais contemplativa, quase monástica. A divisão tornou-se tão grave, que os opositores chegaram ao extremo de tentar destituir o Fundador. Para conseguir esse objectivo, chegaram a envolver o Bispo, inventando e tecendo uma teia de denúncias caluniosas.
O Pe. Dehon chegou a ver-se, não só sem o apoio do seu Bispo, mas sujeito a toda a espécie de manobras, a ponto de, em pleno Capítulo Geral, ser apresentada a proposta da sua substituição à frente da Congregação. Era o que de pior podia acontecer a um fundador.
Também neste caso, o Pe. Dehon reagiu segundo a lógica da sua espiritualidade. Registou o facto de que em alguns acabara por faltar a confiança na sua pessoa de modo que, a partir dessa altura, em todos os Capítulos Gerais passou a apresentar sistematicamente a sua demissão que, no entanto, era também sistematicamente rejeitada pela maioria.
Em todas estas dolorosas e incríveis vicissitudes não é difícil imaginar o estado de espírito do Fundador, o qual, no entanto, sempre aceitou tudo em espírito de amor e de reparação, que se traduzia numa atitude de amor e de compreensão para com os seus opositores. Alguns deles acabaram por desistir, ao passo que outros, por graça de Deus, aos poucos abriram os olhos e se retractaram, pedindo-lhe perdão.
Não temos dificuldade em admitir que para o Pe. Dehon todos estas sofrimentos, como, de resto, ele próprio escreveu, foram mais dolorosos do que os anteriores, uma vez que se punha directamente em causa a sua personalidade, a sua credibilidade, a sua dignidade.
Para compreendermos estes acontecimentos dolorosos e até dramáticos, precisamos de ter em consideração muitos elementos objectivos que iam para além das divergências doutrinais. Por exemplo, as suas prolongadas ausências das casas da Congregação, devidas às múltiplas viagens, aos congressos e às conferências que era chamado a proferir também fora da França, como também o isolamento provocado pelas guerras (a guerra franco-prussiana e a grande guerra de 1914-1918, não podiam deixar de diluir um pouco a sua pessoa e de provocar uma certo distanciamento em relação aos seus acompanhado por uma certa diminuição da sua autoridade.
Podemos entrever o seu estado de espírito e sofrimento em algumas passagens do Diário (1896), onde, além do mais, chega a afirmar que não se encontrava bem senão em Roma: “É para mim uma nesga azul no céu nublado, um oásis no deserto destes anos bastante tristes”. A um dos seus Padres escreve: “Diga aos meus amigos que não se preocupem com a minha sorte; amo Roma e vivo feliz nela. S. Quintino é para mim o exílio, Roma é a minha pátria” (ao Pe. Falleur, no mesmo ano). Expressões como estas, mesmo considerando que em Roma tinha muitíssimos amigos, a começar pelo Papa (na altura Leão XIII), Cardeais, Bispos e nomes ilustres da nobreza romana, não deixam de parecer incríveis, sobretudo da parte de um francês.

4.    Tudo pelo Sagrado Coração de Jesus

Depois desta vista de olhos pelos principais acontecimentos dolorosos que preencheram a vida do Fundador, podemos chegar a uma avaliação de conjunto.
Como vimos, a longa vida do Pe. Dehon foi atormentada por muitas e graves enfermidades e surge-nos como uma árvore despojada de todos os seus ramos. Abandonado por tantos amigos, renegado até por alguns dos seus, atingido de toda a parte, desacreditado em Roma, desolado perante a destruição de quase todas as suas casas durante as guerras e as espoliações do governo maçónico e anti-clerical francês. Foi-lhe pedido, como a Job, que sacrificasse tudo, incluindo a honra.
Mas é exactamente desta dramática situação existencial que emerge a completa estatura espiritual do homem e do Fundador. Quando tudo desabava à sua frente, acreditou com fé inabalável, colocou-se cegamente nas mãos de Deus e esperou contra toda a esperança. Quando tudo parecia voltar-se contra ele, não culpou ninguém a não ser a si mesmo e sofreu e ofereceu tudo por amor e reparação. Também quando o seu coração sangrava, exteriormente apresentava-se sempre sereno, optimista e até prazenteiro. Do seu voto de vítima e do abandono nas mãos de Deus retirava uma força incrível e uma imperturbabilidade inalterada. E não deixa de ser um mistério inexplicável o facto de conseguir, até nos momentos mais cruciais, concentrar-se numa contínua actividade de pesquisa e de redacção das mais variadas publicações.
Se o primeiro louvor vai para o Altíssimo que é sempre admirável nos seus santos, não podemos deixar de concluir que a Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus foi dada à luz no sofrimento do seu Fundador, aceite e oferecido por amor. Morrendo, ele deixou-nos em herança o mais precioso dos tesouros, o Coração de Jesus, mas ao mesmo tempo deixou-nos a herança da sua santidade, que Deus fez surgir esplendorosa do cadinho da cruz. Aquela cruz sobre a qual está impresso o Coração que é a linguagem mais eloquente do amor, recebido e oferecido.


(traduziu P. Fernando Ribeiro, scj)